Festa Junina: Origens Históricas e Culturais

11.06.2018 | Convidados

Por Wander de Lara Proença

No início do terceiro século da era cristã já havia sido elaborado um calendário eclesiástico, em cujas datas fixas os cristãos deveriam celebrar acontecimentos memoráveis, como a Páscoa, por exemplo. Aos poucos também foi inserido neste calendário o dia da morte de cristãos que haviam sido martirizados durante as perseguições impostas pelo Império Romano. Além da visitação aos locais em que estavam sepultados estes “heróis da fé”, e orações feitas em sua memória, as relíquias (objetos pessoais) deixadas por estes logo começariam a ser alvo de veneração, especialmente a partir do século IV.

As homenagens a São João e a São Pedro começaram a ser feitas neste período. São João (João Batista) era primo de Jesus, e, segundo a tradição, nascido a 24 de junho, e morto por decapitação no dia 29 de agosto do ano 31, na Palestina, a mando do rei Herodes. Pedro, segundo a tradição, depois de exercer importante liderança como apóstolo na igreja de Jerusalém transferiu-se para a cidade de Roma, capital do Império. No ano 67, durante perseguição imposta por Nero, acabou sendo preso e condenado a morrer crucificado. Relatos do século II afirmam que o apóstolo, antes de sua execução, disse que não era digno de morrer como morrera Jesus, pedindo por tal motivo para que fosse crucificado de cabeça para baixo; e assim ocorreu.

1 – SIGNIFICADO DOS SÍMBOLOS PRESENTES NA FESTA JUNINA
O uso de comidas, bebidas e danças, presentes hoje nas festas juninas, deve sua origem – dentre outros fatores – ao sincretismo feito entre o culto cristão e o culto a Dionísio (deus grego da alegria e do vinho, e também das colheitas, chamado Baco entre os romanos). Nos cultos populares que os gregos e os romanos ofereciam a Dionísio, verificavam-se farta alimentação e bebidas, música, danças, com uma forte tendência à sensualidade, o que era geralmente feito à noite. Ocorriam também adivinhações para o casamento, prognóstico para o futuro e banhos coletivos pela madrugada.

Quando o cristianismo se tornou religião oficial do Império Romano no século IV, multidões aderiram à fé cristã, intensificando um processo de sincretismo. Desta forma, por exemplo, antigos deuses foram substituídos por santos (apóstolos e mártires) cristãos, tornando-se, assim, os santos padroeiros das cidades greco-romanas, o que também ocorre até hoje em nosso país. O uso de fogueiras em homenagem a estes santos aparece com notabilidade no período medieval, quando na Europa se desenvolve o feudalismo – sistema esse em que a sociedade concentra-se basicamente na zona rural, vivendo da agricultura. Assim, nos meses de junho e julho, com a proximidade das colheitas, acendiam-se fogueiras para afastar os maus espíritos da esterilidade e repelir as pestes dos cereais. Neste período, os camponeses realizavam danças ao redor do fogo, e saltos sobre as chamas, para afugentar os espíritos da fome, do frio e da miséria. O ritual de pisar sobre as brasas com os pés descalços é nesse momento reinventado, pois já era praticado no século I da era cristã pelos fiéis da deusa Diana, em Éfeso.

2 – O DESENVOLVIMENTO DA FESTA JUNINA NA CULTURA BRASILEIRA
No Brasil, as festividades juninas também se desenvolveram bastante entre as populações rurais, estabelecendo um sincretismo entre a tradição cristã, crenças e costumes indígenas, e cultos de matriz africana.

As festas de São João e São Pedro foram trazidas pelos portugueses durante o período da colonização. Na Península Ibérica (Espanha e Portugal) o culto a São João já era naquele momento um dos mais antigos e populares. Ali, durante a Idade Média, as expressões de fé e crenças populares existentes em relação aos antigos deuses, foram transferidas e adaptadas aos santos católicos.

Desse modo, os missionários católicos, no período colonial, usavam as festas juninas como uma estratégia de conversão dos índios à sua fé. Culturalmente, os indígenas se identificavam bastante com rituais e cerimônias que utilizassem fogo e danças. Em 1583, por exemplo, o missionário jesuíta Fernão Cardin, indicando as três festas religiosas celebradas pelos indígenas com maior alegria, escreveu: “A primeira é a fogueira de São João, porque suas aldeias ardem em fogos, e para saltarem as fogueiras não os estorva a roupa.” Também o franciscano Frei Vicente do Salvador, um dos cronistas do Brasil, informava que os indígenas “só acodem todos com muita vontade, nas festas em que há fogueira, como no dia de São João Batista”.

O ritual com danças, ao redor de fogueiras, também representava forte apelo aos escravos de origem africana, presentes em terras brasileiras, fato que contribuiu para aproximações sincréticas com os festejos juninos. O historiador Robert Slenes, no livro Na Senzala, uma Flor, cita depoimentos de viajantes europeus em visita ao Brasil no século XIX, que relataram em seus diários: “Na choça do cativo ardia um fogo, que era mantido permanentemente aceso mesmo nos dias mais quentes” (Robert Walsh, 1840). Outro depoente: “Que horror! […] além de tudo, sem janelas!”.

O autor destaca os significados culturais que o fogo representava para a gente africana. O fogo sempre aceso fazia parte do culto aos ancestrais e representava a continuidade da linhagem, numa dimensão intergeracional, implicando também na proteção propiciada pelo ancestral; havia igualmente um significado religioso: a ligação com o mundo dos espíritos. Outro pesquisador, Karl Laman, citado por Slenes, observa: “No campo onde as mulheres trabalham sempre se acende um fogo com um tição que elas trazem consigo do fogo doméstico” (p.245), representando um tipo de proteção (“medicina”) dos espíritos no local de trabalho, além de proteção aos filhos. Em síntese: “No Brasil, o fogo doméstico dos escravos, além de esquentar, secar e iluminar o interior de suas moradias, afastar insetos e estender a vida útil de suas coberturas de colmo, também lhes servia como arma na formação de uma identidade compartilhada”. As celebrações juninas propiciavam, desse modo, espaços de interações culturais.

Nas festas juninas, além da travessia sobre as brasas, estas datas são acercadas de magias e superstições. O conhecido escritor brasileiro, Gilberto Freire, em seu livro Casa Grande & Senzala, em que analisa o Brasil colonial, afirma que: “As festas que fazem na noite ou na madrugada de São João, festejadas a foguetes, visam no Brasil, como em Portugal, a união dos sexos, o casamento, o amor que se deseja e não encontrou ainda (…) Santo Antônio, por exemplo, é um dos santos que mais encontramos associados às práticas de feitiçaria afrodisíaca no Brasil. É a imagem desse santo que frequentemente se pendura de cabeça para baixo dentro da cacimba ou do poço para que atenda as promessas o mais breve possível”.

No interior do país, especialmente no Norte e Nordeste, a fogueira de São João é de iniciativa familiar e posta diante de cada residência. Durante a noite de 23, rapazes e moças se fazem compadres e comadres. Até por volta de 1912, nas regiões mais interioranas, casamentos eram realizados de verdade ao redor da fogueira, em presença dos pais, dos noivos, padrinhos, pessoas da família e convidados. Devido ao número insuficiente de sacerdotes para atender as zonas rurais, estas cerimônias eram válidas até que o missionário passasse por aqueles lugares e, oficialmente, abençoasse a união. Daí, até hoje, o costume de se realizar o “casamento caipira” como parte das festividades.

Desenvolveu-se também a crença de que São João permanece dormindo durante o dia do seu aniversário, por isso acendem fogueira durante a noite, soltam fogos ou disparam armas de fogo para que o santo seja despertado e, vendo o clarão feito em sua honra, desça do céu a fim de festejar juntamente com os seus devotos.
São Pedro é festejado semelhantemente a São João, embora em menor escala. Criou-se a tradição, no interior do Brasil, de que todo homem que tinha a palavra “Pedro” ligada a seu nome, possuía a obrigação de acender uma grande fogueira diante de sua porta e soltar fogos ou disparar armas de fogo. Este voto já era feito pelos pais quando o filho recebia o nome de batismo.

3 – O CARÁTER FOLCLÓRICO DA FESTA JUNINA ATUAL
Especialmente a partir da década de 1970, em que o Brasil experimentou um grande processo de êxodo rural e consequente urbanização, os costumes mais tipicamente vinculados ao campo foram transportados para a cidade. Desta forma, as festas juninas foram perdendo o seu sentido mais propriamente religioso e místico, assumindo um caráter folclórico e cultural. Daí, não somente escolas, mas, também igrejas de tradição evangélica realizarem festividades nesta época do ano, sem que associem tais práticas a conotações místicas ou religiosas. Desse modo, esses cristãos preferem realizar os seus próprios “eventos juninos”, atribuindo aos mesmos um sentido de entretenimento e lembranças de um passado rural, com o qual geralmente possuem fortes laços de memória, de afeição e saudosismo.

Referências:
FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1983.
SLENES, Robert. Na Senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava. Campinas: Editora Unicamp, 2011.

Prof. Dr. Wander de Lara Proença – Doutor em História e professora na Faculdade Teológica Sul Americana

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